sábado, 26 de outubro de 2013

NÃO HÁ VAGAS

Postado por Aninha Teixeira às 17:50
Esse poema, do Ferreira Gullar, é um dos meus preferidos. É um dos únicos poemas que eu me lembro de ter realmente gostado no meu 1º ano do Ensino Médio. Ele ficou guardado na minha memória desde então.

O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.


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